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Histórias em quadrinhos: acesso à leitura e ao entretenimento

Entrevista com uma fã de Turma da Mônica e pesquisadora de HQs
Publicado em 13/09/2019 às 11:01Atualizado em 13/09/2019 às 11:02

Isa Maria Marques de Oliveira é doutoranda em Estudos de Linguagens pelo Cefet/MG e desenvolve a pesquisa Processos editoriais em Histórias em Quadrinhos. Além disso, é fã da Turma da Mônica desde criança, prazer que ela compartilha hoje com o filho. Em um bate-papo interessante sobre sua relação com a Turminha, ela fala também sobre o contexto de produção e circulação das histórias em quadrinhos, a importância da criação de Mauricio de Sousa para a formação de crianças brasileiras, além da alfabetização no Brasil.


Na sua opinião, qual a relevância da Turma da Mônica para a cultura do Brasil?

A Turma da Mônica foi praticamente uma iniciação à alfabetização de muitas crianças brasileiras como complemento ao ensino em sala de aula, um verdadeiro estímulo à leitura. Inclusive eu, quando fazia tratamento fonoaudiológico, dos 6 aos 10 anos de idade, fui aprendendo com os erros de fala do Cebolinha, que era um dos problemas que eu tinha e tratava na época. Eu fui aprendendo o jeito certo de falar, eu lia muito na sala de espera do consultório, que tinha muitas dessas revistas, foi aí que pedi minha mãe meu primeiro Almanacão de férias da Mônica. E paralelo a essas leituras, eu tive alta cedo, aos 10 anos, eu já estava falando tudo certo e já inserida no universo da leitura. A minha médica disse: “agora ela dá conta de caminhar sozinha com a linguagem dela. Eu acredito que, da mesma forma que a Turma da Mônica me ajudou, ela contribui significativamente para a formação do leitor brasileiro e de nossas crianças, porque a Turma da Mônica é o retrato do que temos de mais brasileiro em uma linguagem acessível e compreensível, sem nos atermos à televisão ou à internet.


Qual a importância das HQs no universo da leitura tanto de adultos quanto de crianças?

Um pouco do que disse na primeira pergunta já responde a esta: as HQs são uma narrativa com uma linguagem atrativa tanto para adultos quanto para crianças. Elas possuem os dois signos: visual e textual e são complementares, então é possível compreender a história por meio das sequências, igual ao cinema mudo de antigamente. O que introduz e instiga as pessoas a buscarem mais informação, mais leitura, e uma coisa puxa a outra. Nesse sentido, as HQs são também fonte de leitura, não só a literatura escrita tradicional que estamos acostumados da narrativa puramente textual. Ela carrega um atrativo de aproximar o leitor desabituado a leituras mais densas, a ler um pouco por dia, até ele se ver imerso nesse universo dos livros. Hoje existem muitos romances de ficção adaptados das HQs, você duvidaria que todo leitor que já leu tudo sobre o Batman ou a Guerra Civil não vai querer ficar de fora e deixar de ler um romance de 300 páginas em outra linguagem como um romance? Da mesma forma que muitos leram as HQs assistem aos filmes nos cinemas e vice-versa!


Qual parte da história dos quadrinhos mais marcou a sua infância? Como foi para você crescer sendo fã da Turma da Mônica?

Não lembro ao certo qual parte da história dos quadrinhos mais me marcou. Hoje releio muita coisa que por ventura eu possa ter lido na infância, mas o marco mesmo na minha vida foi meu primeiro Almanacão de férias, que até pouco tempo atrás eu tinha na casa dos meus pais; nele tinha historinhas, atividades etc., era uma forma de eu estar conectada com as histórias da Mônica nas férias, quando não tinha consulta médica e também podia ler no ônibus. Hoje sou mais fã que antigamente, porque à medida que fui crescendo fui descobrindo novos personagens de quadrinhos então, depois que me tornei mãe, comecei a me apaixonar pela turminha de novo junto com meu filho. Isso é sensacional!


Você influencia as novas gerações a gostar da Turma? Como é a relação do seu filho com a Turma da Mônica?

Sim, principalmente com as minhas resenhas no meu instagram @corujadasletras; sempre tenho bons feedbacks, pois a maioria dos meus seguidores são pais, professores, pessoas ligadas ao universo dos livros, da escola e/ou tem filhos. E acabam buscando nas versões que a Turma da Mônica tem se adaptado, como os mangás, as graphics novel etc., uma forma de apresentar esse universo para jovens e adultos. A Turma da Mônica não foi feita para crianças apenas, na verdade ela nasceu como tiras diárias de jornais que eram lidos por adultos, e foi ganhando seu espaço com público de todas as faixas etárias e isso se perpetua até hoje. Meu filho conheceu a Turma da Mônica na versão Toy criada para YouTube, que é a Turma da Mônica Toy, um anime em versão muda (sem linguagem verbal) dos personagens, e daí foi para os livros, agora ele tem até o livro de oração da Turma da Mônica igual ao que eu tive quando ganhei ainda criança, é a mesma edição, porém reimpressa. Ele adora! Até o bolo preferido dele é da Turma da Mônica, que só acho para comprar a 500 km de BH. Essa semana chegou uma remessa pra ele, você tem que ver a alegria dele, ele fala o sabor do bolo que quer pelo personagem, bolo da Mônica, bolo do Cascão ou bolo do Cebolinha. Só não entendi por que não tem da Magali.


Qual seu personagem favorito?

Difícil responder. Gosto muito do Bidu (de forma isolada) e da turminha toda junta. Não tenho um personagem preferido. Mas o Bidu eu tenho um carisma porque eu amo cachorros, e ele foi o 1º personagem criado pelo Mauricio de Sousa e que deu o nome da editora dele: Bidulândia Produções, lá nos anos 1960.


Como surgiu a ideia de pesquisar HQs?

Eu sempre quis pesquisar algo que envolvesse texto e imagem, na linha semiótica, e queria dar continuidade à pesquisa de mestrado com poesia, então faltava algo aliado à imagem. Nisso, queria algo que não fosse da linha dos estudos da poesia concreta e visual. Então, surgiu a ideia de tentar encontrar narrativas de poesia em quadrinhos, e como meu esposo é colecionador de gibis raros, eu acabei tendo essa ideia inicial. Mas com o tempo eu vi que ia cair na mesma linha de pesquisa anterior que era a linha de literatura e discurso, e eu queria entrar para a linha de edição. À medida que eu pesquisava eu vi que faltava muita informação e estudos, que não foi sobre as HQs, que se tratava dos processos editoriais, porque havia muitos estudos de narrativa e de imagem das HQs, mas não de produção, criação e mercado editorial por vários motivos, então resolvi mergulhar de cabeça em algo mais amplo e ao mesmo tempo pouco explorado, assim eu comecei a conhecer quase que do zero esse nicho, pois já havia anos que não lia uma história em quadrinhos. É um caminho sem volta, quem entra no mundo dos quadrinhos dificilmente vai sair dele ou abandonar, porque hoje a diversidade de obras e histórias vai muito além da Turma da Mônica e super-heróis. Tem quadrinhos para todos os tipos de gostos, assim como temos poesia, contos, crônicas, romances, terror, temos essa diversidade de abordagem narrativa nos quadrinhos. E hoje, os quadrinhos estão em um status inovador, o status de livros, estão competindo pelos mesmos lugares que os livros literários nas estantes das livrarias, das bienais e da casa dos leitores! Isso é fantástico.