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Protagonistas da cultura e do desenvolvimento

Veja como foi o primeiro fim de semana de atrações do Sesc na '20ª Mostra de Cinema de Tiradentes'
Publicado em 23/01/2017 às 10:05Atualizado em 24/01/2017 às 09:29

Lorena Otero

Ser autêntico requer coragem. É ter uma força capaz de sustentar sua visão de mundo contra um mar de influências e pré-conceitos. É ter clareza de sua identidade e espaço para torná-la externa. É reagir. É reiventar.

A edição 2017 da Mostra de Cinema de Tiradentes começou levando essa reflexão para as esferas da cultura e do comportamento. Comemorando 20 anos, o evento se solidifica como ferramenta política de reflexão e de definição de tendências para a produção audiovisual no país. O Sesc marca presença em um espaço exclusivo, dedicado à reflexão e à expansão da cultura. Ao longo da programação, o Sesc Cine Lounge promove exibições de videoarte, shows e debates com artistas sobre os mais variados temas. Além disso, a instituição leva para os espaços públicos da cidade intervenções e arte de rua. Confira as principais atrações deste fim de semana:

Sesc marca presença na '20ª Mostra de Cinema de Tiradentes' (Crédito: Henrique Chendes/Sesc)

A Banda Ramalho garantiu a trilha sonora para os entusiastas que chegaram para a abertura oficial da Mostra, na noite de sexta-feira (20/1). No final da noite, o Encontro de Cinema – Roda de Conversa recebeu a banda paulista As Bahias e a Cozinha Mineira que, entre uma música e outra, destacou a importância da transgeneridade para o enriquecimento da diversidade cultural. A vocalista trans Assucena Assucena falou sobre preconceito e autenticidade. “Por mais que as coisas tenham melhorado, dificuldades ainda acontecem e é sempre complicado. Mas, como diria Guimarães Rosa, ‘viver é muito perigoso’. Compreender quem eu sou foi muito importante. Foi entender que existe sim ser mulher em vários corpos”, analisa.

Integrantes da banda paulista As Bahias e a Cozinha Mineira agitaram o debate sobre transgeneridade (Crédito: Henrique Chendes/Sesc)

No sábado (21/1), a grafiteira Criola iniciou um trabalho no Sesc Cine Louge voltado para o empoderamento da mulher negra, como parte do Projeto Parede. O público poderá ver o processo criativo da artista que concluirá a tela até o final da Mostra.

'Projeto Parede' marca presença na programação (Crédito: Henrique Chendes/Sesc)

Em seguida, como parte da programação apoiada pelo Sesc, houve o desfile do Cortejo da Arte embalando a festa dos foliões na Rua Direita. Entre os destaques, desfile da Corte Devassa, Bloco Unidos do Samba Quixinho, Bonecões do Mestre Quati, Turma do Pipoca, Folia de Reis e Congado da Guarda Nossa Senhora do Rosário, e diversos artistas convidados.

Tradicional berço do movimento cultural da cidade, Rua Direita foi palco para o Cortejo da Arte (Crédito: Henrique Chendes/Sesc)

A pedagoga Caroline Marchiore (28) veio do Rio de Janeiro para conhecer o evento. Acompanhada do marido, Marcelo dos Santos (29), e das filhas, Eduarda (4) e Manoela (2), ela festejou com os foliões. “Estamos adorando o clima da cidade e as atividades da Mostra. Tentamos instigar em nossas filhas o interesse por história e cultura levando-as a lugares diferentes. É ótimo poder contar com esse clima lúdico, estamos adorando”, revela.

A família Marchiore Santos na folia do Cortejo da Arte (Crédito: Henrique Chendes/Sesc)

Ainda no sábado, foi a vez do Coletivo Opavivará estrear a performance Sofaraokê, no Largo das Fôrras. Pessoas de todas as idades se permitiram cinco minutos de fama soltando a voz e perdendo a inibição. “A gente tirou o sofá de dentro de casa porque acreditamos que a arte tem que ser pública e compartilhada”, destaca o grupo.  O comerciário Sildelsino Ferreira Júnior (32) aproveitou o segundo dia da instalação e dedicou sua interpretação de Não quero dinheiro para sua esposa, Jaqueline. “Esses eventos abrem a cabeça da gente para coisas importantes de se valorizar, como o teatro, música, dança e, é claro, cinema”, reflete.

Sidelsino veio de Ipatinga acompanhado da esposa, Jaqueline, da filha, Letícia e da tia, Vânia (Crédito: Lorena Otero/Sesc)

Já na madrugada de sábado para domingo, o artista sonoro Barulhista fechou a noite criando uma trilha mecânica que dialoga com imagens projetadas em um telão,  numa performance que ele mesmo define como uma visão audiovisual de suas “experiências cotidianas”.

Som mecânico de Barulhista atraiu público alternativo (Crédito: Henrique Chendes/Sesc)

No começo da tarde de domingo, os músicos do conjunto Pé de Sonho garantiram a diversão de seus pequenos fãs. “Temos muito que agradecer ao Sesc e a todos vocês por viabilizarem, da melhor forma possível, o sucesso de nossa apresentação hoje. Cada pessoa que estava na plateia fez parte da banda e nos fez sentir completos”, comentou o violonista Weber Lopes.

Repertório da banda Pé de Sonho se caracteriza pela beleza, diversidade rítmica e adequação da linguagem (Crédito: Lorena Otero/Sesc)

No Largo das Fôrras, o teatro de rua Palhaços à Vista divertiu o público com números que resgatam tradições circenses, como malabarismo, mágica e mímicas. Em um estilo que remete ao início da trupe Os Trapalhões, os artistas da Cia. Circustância arrancaram sorrisos de todos. Para as crianças, muita cor, música e movimento; para os adultos, sacadas sarcásticas com temas políticos e culturais. “O palhaço é o rei do picadeiro. Estamos contando com as crianças para perpetuar as tradições e cuidar do mundo, que é de todos nós”, conclui o ator Miguel Safe, na pele do palhaço Bambulino.

Cia. Circunstância levou para a mostra o espetáculo 'Palhaços à Vista' (Crédito: Lorena Otero/Sesc)

Encerrando a programação do Sesc neste fim de semana, o show Não Recomendados lotou o Cine Sesc Lounge com o talento provocador dos artistas Caio Prado, Daniel Chaudon e Diego Morais.

Espetáculo 'Não Recomendados' questiona padrões de comportamento e vícios da sociedade (Crédito: Henrique Chendes/Sesc) 

Veja mais imagens do Sesc Cine Lounge.

SOBRE MOSTRA E AS HOMENAGEADAS
Com o tema Cinema em Reação, Cinema em Reivenção, a 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes propõe uma reflexão sobre o cinema como espelho da sociedade. Na programação, 108 filmes de 13 estados, além de debates e oficinas sobre a produção cinematográfica no Brasil. Este ano, o evento homenageia também o protagonismo feminino na figura das atrizes, diretoras e produtoras Leandra Leal e Helena Ignez.

Com uma trajetória que vai de musa do Cinema Marginal à diretora de obras contemporâneas, Helena acompanhou uma revolução social e se revela otimista sobre a conscientização das pessoas. “Desde o final da década de 1950, quando eu estreei no cinema, houve uma imensa evolução no que diz respeito ao reconhecimento do papel da mulher. Sou de uma geração de mulheres machistas, então foi necessário um movimento muito chocante para quebrar essa hegemonia. Hoje existe um grupo de mulheres que pensam e se posicionam. Ainda existe o resto de uma cultura machista, em determinados setores da sociedade, mas ela esta se diluindo”.

Helena Ignez recebe o prêmio ao lado da família (Crédito: Henrique Chendes/Sesc)

Já velha conhecida do evento, Leandra Leal participou logo da primeira edição da Mostra, em 1998, com a exibição do filme A Ostra e o Vento. Em seguida, marcou presença como produtora da trilogia Operação Sônia Silk, em 2016, e agora volta para exibir Divinas Divas, filme sobra a primeira geração de travestis no Brasil e sua estreia como diretora. “Eu queria ir além do público LGBT. Eu queria apresentá-las (as travestis) com toda sua complexidade humana e aproximá-las do espectador”, reflete.

Homenageada de uma edição que debate o papel da mulher nas mais diferentes esferas da sociedade, Leandra faz uma reflexão sobre a representatividade feminina na produção audiovisual nacional. “A maioria dos criadores são homens, e vejo a publicidade como principal campo de batalha. É uma noção muito louca: homens que constroem uma imagem ideal da mulher para um público feminino que aceita e consome. Existe um esforço para a mudança e isso me deixa bastante feliz, mas a mulher precisa assumir consciência de que também participa dessa cadeia, até na maneira como cria seus filhos”.

Leandra Leal acompanhada da mãe e da filha. (Crédito: Henrique Chendes/Sesc)

Para todas as jovens artistas que pretendem seguir os passos das homenageadas, essas grandes mulheres deixam valiosos conselhos:  “Veja filmes, participe ativamente do que está acontecendo e entenda que haverá muita pressão e cobrança – não só de seu público e colegas, mas de você mesma”, explica Helena. “Cinema é uma atividade coletiva, portanto ache sua turma”, finaliza Leandra.

As atrações da Mostra de Cinema continuam até o dia 28 de janeiro com diversas atrações no Sesc Cine Louge, incluindo Rodas de Conversa com Ney Matogrosso (24/1, às 21h) e Camila Pitanga (25/1, às 21h). Saiba mais aqui.